ALICE PEBAY
Bom, na verdade, há diferentes tipos de células tronco. Temos que diferenciar entre o que chamamos de célula tronco embrionária e uma célula tronco adulta. Vamos começar pelas células tronco embrionárias. Como o próprio nome sugere, uma célula tronco embrionária é uma célula originada a partir de um embrião. É chamada de célula tronco porque se trata de uma célula que, na verdade, ainda não está se transformando em nada. Ela tem o potencial de se transformar em tudo. As células tronco embrionárias vêm dos estágios iniciais de um embrião, ao passo que uma célula tronco adulta é uma célula que se encontra em nichos dentro de nosso corpo, do corpo de um adulto ou de uma criança.

SHANE HUNTINGTON
Que o real papel dessas células tronco? Quero dizer, obviamente elas tem uma função bastante específica, mas que papel é esse?

ALICE PEBAY
Bem, uma célula tronco embrionária tem, obviamente, um papel fundamental, que é o de formar um indivíduo. Sem as células tronco embrionárias não teríamos um corpo, um indivíduo. Elas existem para possibilitar o desenvolvimento das células que darão origem à pele, aos músculos, aos diferentes órgãos, ao sistema nervoso, a todos os órgãos do nosso corpo. Assim, voltando para as células tronco adultas, tais células têm o potencial para se diferenciar em tipos específicos de células, ou seja, o potencial delas é menor que o das células tronco embrionárias. O que significa sua provável função no organismo é gerar células de uma parte específica. Por exemplo, as células tronco da medula óssea darão origem às células sanguíneas ao longo de toda a nossa vida, basicamente.

SHANE HUNTINGTON
As células tronco podem se transformar essencialmente em qualquer célula, ao passo que as células tronco adultas têm uma função muito específica. É isto?

ALICE PEBAY
Sim. Esta é uma boa generalização.

SHANE HUNTINGTON
Quando falamos em células tronco embrionárias, elas podem, a partir de uma origem específica, ser usadas no corpo de qualquer pessoa ou tem que haver algum tipo de vínculo hereditário entre as células; tem que ser um membro da família ou podemos pegar as células tronco embrionárias e usá-las em qualquer indivíduo?

ALICE PEBAY
Bom, não se pega células tronco embrionárias e as implanta em alguém. Primeiramente, porque sabemos que as células tronco embrionárias podem se tornar basicamente qualquer coisa, inclusive um câncer. Não sabemos como controlar a diferenciação, especialmente no corpo. Quando injetamos células tronco, corremos um grande risco de criar uma nova doença no organismo. O segundo ponto é a rejeição. Se colocarmos qualquer material originário de outro indivíduo em nosso próprio corpo, correremos o risco de que esse material seja rejeitado. Portanto, isso não deve ser feito.

SHANE HUNTINGTON
Mirella, vamos falar um pouco sobre a controvérsia que cercou o uso desses tipos de células, especialmente as do tipo embrionário. Qual é a base dessa controvérsia?

MIRELLA DOTTORI
A base reside no fato de que as células tronco embrionárias são derivadas de um blastocisto ou blástula. No momento da fertilização, temos um óvulo e um espermatozoide, que se juntam para formar um zigoto, que continua a se dividir. Depois de quatro, cinco dias, ele se transforma no que chamamos de blastocisto ou blástula. Assim, o blastocisto é aquele momento na natureza em que temos a passagem através das trompas de falópio, o momento da implantação no útero. Basicamente em todo o mundo, as leis estabelecem que a maioria das células tronco embrionárias têm que ser derivadas um blastocisto, que nocaso foi gerado para o objetivo de fertilização in vitro. Assim, casais que passaram pelo processo de fertilização in vitro (FIV) e têm todos esses embriões disponíveis - alguns dos quais são imediatamente implantados, caso não queiram fazer a implantação imediata, podem optar pelo sue congelamento. Após certo número de anos, eles têm uma escolha a fazer: destruir os embriões ou implantá-los. E atualmente existe uma terceira opção: os embriões podem ser doados para pesquisa. Se forem doados, podem ser usados em pesquisa envolvendo a derivação de células tronco embrionárias. A controvérsia em torno do tema consiste no fato desse embrião ter o potencial de criar um novo indivíduo. Portanto, na visão de muitas pessoas, estamos destruindo uma vida para salvar outras vidas.

SHANE HUNTINGTON
Alguns de nossos ouvintes devem lembrar que cobrimos algumas questões relacionadas às células tronco no Episódio Quatro. Entretanto, uma das perguntas que tenho para você hoje, alguns anos mais tarde, é: você acredita que a controvérsia em torno das células tronco embrionárias ajudou a impulsionar essas outras áreas de pesquisa envolvendo células tronco, como a sua área de trabalho?

MIRELLA DOTTORI
Sim. Esta é uma questão muito, muito delicada, toda essa controvérsia que envolve as células tronco embrionárias. Quando a vida começa? Estamos tirando uma vida? E depende da compreensão e das crenças de cada um, não existe certo ou errado. Obviamente, algumas pessoas possuem um sentimento muito forte em relação a isto. É compreensível e certo que seja assim. Talvez esta seja uma das principais forças motrtizes do ponto de vista estritamente científico. As pessoas pensarem "bom, sabemos que o potencial do uso das células tronco embrionárias é extremamente valioso porque elas têm o potencial de se transformarem em todo tipo de célula. Então agora temos uma fonte de células que podem ser ttransformadas em diferentes tipos celulares para terapia de reposição, e assim por diante." Mas quais as outras alternativas? Uma das alternativas é a clonagem - a transferência do núcleo da célula somática. Por muitos, muitos anos, as pessoas vêm tentando seguir por esse caminho, mas a técnica é extremamente ineficiente em humanos. Foi possível realizar a clonagem até certo ponto em placas, mas não foi possível propagá-la. Gostaria de ressaltar que existe a clonagem terapêutica e a clonagem reprodutiva. A clonagem terapêutica serve apenas para a de derivação de tipos celulares e a clonagem reprodutiva, que é contra a lei, em âmbito internacional, seria a implantação daquele clone em outro para daí se derivar outro indivíduo. Por conta dessa ineficiência, foi necessário buscar uma terceira opção. Por alguns anos, vêm-se tentando descobrir quais são os genes essenciais ou os fatores que fazem da célula tronco embrionária uma célula tronco embrionária pluripotente, capaz de se transformar em qualquer tipo de célula. E, surpreendentemente, alguns cientistas do Japão e também dos EUA – os cientistas japoneses chefiados por Yamanaka, que foi um dos líderes, um dos primeiros grupos que conseguiu chegar a quatro, cinco fatores, que correspondem aos genes que determinam a formação de uma célula tronco embrionária, que determinam suas características de pluripotência. A partir daí pudemos derivar as células tronco de pluripotentes induzidas.


SHANE HUNTINGTON
Mírela, com frequência escutamos sobre o valor do sangue de cordão. De fato muitos pais são estimulados por empresas privadas, por alguns hospitais a guardar seu sangue, às vezes por um alto custo, às vezes doando seu sangue espontaneamente, por que fazem isto? Qual o valor do sangue do cordão em relação às células tronco?

MIRELLA DOTTORI
O sangue do cordão tem características similares às das células tronco da medula óssea, essencialmente, como a célula tronco de um adulto no qual elas podem, definitivamente, podem gerar alguma linhagem, por exemplo, algum tipo de célula de sangue, inclusive talvez alguma gordura óssea etc. Atualmente, existe escola de pensamento lá fora, ou alguns pesquisadores que também afirmam que o sangue do cordão também pode dar origem a todos os tipos de células do organismo, Inclusive nervos e músculos etc. por esta razão muitas pensaram, ‘bom, o sangue do cordão pode ser outro tipo de célula que será equivalente em certo ponto a uma célula tronco embrionária”. Foram realizados muitos experimentos feitos onde as pessoas transplantaram o próprio sangue do cordão e observaram alguma melhora. Porém o que ficou evidente com as células-troco do cordão é que liberam muitos fatores de apoio, apoio trófico. Pelo que se relaciona a seu potencial regenerativo não é que estejam recolocando células enfermas, senão que realmente estão promovendo suporte ou fatores para proporcionar o corpo para se regenerar e repor suas próprias células. Acredito que esse mecanismo seja mais terapêutico em seu uso do que em uma reposição de célula.  Agora, a idéia de estocar sangue do cordão. Muitos de meus amigos e familiares me perguntam isto. Simplesmente porque não sabemos aonde nos levará a investigação. Assim é que, em certo modo, podemos ver a vantagem de ter suas próprias células, o mais perto possível, armazenadas pelos próximos 30-40 anos. Então, se a pessoa fica com leucemia, se é acometida por alguma enfermidade, a pessoa tem as células como fonte. Porém, agora de novo, com a tecnologia das células IOS das quais podemos derivar potencialmente células do paciente e talvez você perceba que armazenar sangue do cordão não seja tão necessário como as pessoas pensam. Mas, por que não armazenar tudo? Assim, depende do indivíduo. Acredito que seja difícil opinar. Posso compreender as duas escolhas.

SHANE HUNTINGTON
Isto é “UP CLOSE” transmitido da “University of Melbourne, Austrália”. Sou Shane Huntington e nossas convidadas são a Dra. Mirella Dottori e a Dra. Alice Pébay e estamos Falando de células tronco.

SHANE HUNTIGTON
Alice, um dos aspectos mais notáveis das células tronco embrionárias é que são pluripotentes, enquanto que as células tronco adultas quase sempre são chamadas multipotentes. Você pode nos dar uma idéia de qual é a diferença neste caso? O que significam estes dois termos?  O que dá origem às diferentes opções que nos dão estas células?

ALICE PEBAY
Creio que seja realmente algo próprio dos humanos. Você não acha? Necessitamos categorizar tudo. Temos multi, pluri, totipotente. Essencialmente o que significa é que se tomarmos uma célula tronco embrionária, a capacidade de diferenciação é praticamente para todas as células. Por isso é que se chama pluripotente. Ao tomarmos uma célula tronco adulta ela terá capacidade de diferenciação menor e por isso se chama célula tronco multipotente, por exemplo, quando tomo uma célula tronco neuronal, esta célula tronco neuronal poderá se transformar em células do sistema nervoso. Tais como astrócitos ou células macrogliais. Os neurônios. Ao tomarmos uma célula tronco embrionária poderá diferenciar-se em vários tipos de células diferentes. Cardiomicitos, neurônios, células da pele. Muito mais capacidade.

SHANE HUNTIGTON
Alice, em teu trabalho, você começa com uma célula tronco de pele adulta. E de fato você a induz a transformar-se m um tipo de célula necessário para fazer este trabalho. Conte-nos um pouco do que está acontecendo ali.

ALICE PÉBAY
O que fizemos, basicamente, foi seguir a pesquisa que foi realizada nos EUA e no Japão que permitiu a reprogramação de uma célula adulta, célula da pele a uma célula tronco embrionária. Para tanto modificamos a expressão de alguns poucos genes nas células de pele que obtivemos de uma biópsia, esperamos o tempo suficiente e eventualmente chegou a um estágio em que as células eram parecidas com células tronco embrionárias. Quando chegaram a este estágio com nossos colaboradores pudemos isolar estas células e em seguir fazer um cultivo que se usa para a manutenção de células tronco embrionárias no laboratório. Este modo de programação fazia-se modificando genes, usando, então, técnicas que são comumente usadas para biologia de células tronco embrionárias.

SHANE HUNTIGTON
Quando você fala de “reprogramação” não está fazendo exatamente células tronco embrionárias, então o que é similar e o que é diferente?

ALICE PÉBAY
O que é similar e o que é diferente? Bom, sabemos que são similares Nas capacidades de diferenciação. Sabemos que são similares na expressão de vários dos que chamamos marcadores pluripotentes que demonstram que as células são células tronco. Porém sabemos que são potencialmente diferentes e em realidade esta pesquisa está no auge. Porém sabemos que são diferentes em sua epigenética e potencialmente poderiam ser diferentes em sua habilidade de diferenciar-se, porém ainda não estamos seguros. Fundamentalmente o que ocorre aparentemente, apesar de que as células IPS que são células reprogramadas são capazes de diferenciar-se em vários tipos de celulares, de fato encontrei que no laboratório, é um pouco mais difícil fazer o mesmo trabalho que fazem as células tronco embrionárias humanas. Temos que forçá-las um pouquinho mais para que se diferenciem. É um problema técnico? É um problema de reprogramação? É... ainda não sabemos. Entretanto estamos trabalhando nisto para compreender.

SHANE HUNTINGTON
O que você quer dizer com epigenética?

ALICE PÉBAY
Bom, uma explicação muito simples de epigenética seria uma modificação que não encontramos em um gene apesar de ele tê-la, porém ela será encontrada na próxima geração. Então é a epigenética.

SHANE HETINGTON
Alice, por que você escolheu células da pele para esse trabalho?

ALICE PÉBAY
O que fizemos com nosso trabalho que consistia em derivar células IPS de pessoas com uma enfermidade genética específica seguimos o que já havia sido publicado por outro cientista ao redor do mundo. Por que escolheram células da pele? Pode haver várias razões. Uma delas é a disponibilidade das células da pele. A pele é o maior órgão do corpo humano. É muito fácil obter uma biópsia de pele e reprogramar. Entretanto atualmente há uma discussão a respeito de qual é a melhor fonte de células para usar ou o que se pode usar para geração de células IPS e de fato parece ser que a eficácia da reprogramação poderia ser diferente entre um tipo de célula e outro. Estamos usando células da pele, porém, por que não usar adipócitos, ou células de gordura ou outro tipo de células, está completamente aberto. 

SHANE HUNTINGTON
Mirella, estávamos discutindo alguns dos aspectos éticos envolvidos no trabalho com células tronco embrionárias. Imagino que um dos problemas que possa vir a surgir quando se faz esse tipo de modificação de uma célula cutânea, para que ela possa gerar outros tipos celulares é que, como a Alice disse, a partir de células tronco embrionárias podemos essencialmente construir o corpo todo. Isso é um problema no seu trabalho? Você pode fazer o mesmo tipo de coisa com as suas células pluripotentes induzidas?

MIRELLA DOTTORI
Teoricamente sim. Em ratos, células IPS derivadas das células cutâneas da cauda foram posteriormente implantadas no blastocisto de outor rato e, quando este blastocisto foi implantado em uma rata prenhe ou pseudoprenhe, obteve-se uma progênie totalmente derivada das células IPS originais. Em tese é quase como clonagem. O procedimento é semelhante à clonagem. Portanto, teoricamente o petencial existe e, sim, é possível gerar um inívíduo completo a partir de uma célula IPS. E isso foi demonstrado.

SHANE HUNTINGTON
Estas células parecem ser boas demais para serem verdade. Estamos frente ao declínio do campo das células tronco embrionárias, que está sendo substituído por esse novo tipo de células em que você está trabalhando?

MIRELLA DOTTORI
Não, de forma alguma. Não é uma técnica perfeita. A Alice citou vários fatores envolvidos na tecnologia de células IPS que ainda precismm ser abordados.E mesmo a forma comoas células IPS são geradas, essencialmente através da alteração de todo o código genético, é imperfeita.  Os genes que são expressados nas células tronco embrionárias com as células IPS não correspondem 100% aos encontrados nas células IPS. Porque, obviamente, não sabemos tudo. Há muitas coisas sobre aas quais não temos certeza. Pensamos, bom a correspondência não é de 100%, isso importa? E nunca se sabe. Então, por vários motivos, as células tronco emrionária são o padrão ouro e sempre precisamos deste padrão de comparação para avaliar as células IPS. Se é necessário continuar a derivar novas linhagens de células tronco embrionárias, talvez sim, talvez não. Talvez não precisemos delas para a terapia, mas sempre precisaremos para efeito de pesquisas.

SHANE HUNTINGTON
Mirella, se você fosse coletar uma biópsia cutânea minha agora e passar por todo o procedimento de indução dessas células para que elas adquirissem essas características incríveis, como isso seria feito no laboratório?

MIRELLA DOTTORI
Certo. Você iria a um médico para a coleta da biópsia cutânea, que deixaria no máximo um ponto de sutura, e a partir daí faríamos a cultura de células cutâneas, assim como se faz nas vítimas de queimaduras, em que as células cultivadas são usadas para substituir as células cutâneas. Em seguida, elas seriam expandidas em números e introduziríamos esses quatro, cinco genes ou proteínas diferentes nas células, o que pode ser feito de várias maneiras. O método tradicional e mais eficaz é através do emprego de vírus, que carreiam os genes para o interior das células, infectam as células para que elas comecem a expressar esses genes, essas quatro ou cinco proteínas, que chamamos de fatores de Yamanaka. São eles Oct 4, Klf 4, c-Myc e Sox 2. A extressão desse genes ou proteínas induz as células cutâneas a expressarem os mesmos genes das células tronco. São como chaves. São como condutores. É como se dissessem às células “estamos aqui, portanto comecem a expressar seus genes de células tronco e silenciem todos os genes que fazem de vcês células cutâneas. Por isso o procedimento é chamado de reprogramação. E, uma vez que as células cutâneas tenham sido convertidas, transformadas ou reprogramadas em células tronco, elas silenciam os genes que introduzimos. Como o método viral tradicional não é uma opção terapêutica viável, atualmente existem vários grupos, inclusive o nosso laboratório, trabalhando com abordagens não virais. A proteína pode ser introduzida diretamente ou através de sistemas como os plasmídeos. É disso que precisamos. Só precisamos levar essas quatro ou cinco proteínas para dentro das células para fazer a transformação. Uma vez que a transformação tenha ocorrido, os genes exógenos deixam de ser necessários.

SHANE HUNTINGTON
Qual a parte mais difícil desse procedimento?

MIRELLA DOTTORI
Por incrível que pareça, ele ainda é bastante ineficiente. A maioria dos grupos, no mundo todo, consegue reprohramar apenas 0,1% das células, aproximadamente. Depois da introdução desses genes, temos que esperar pelo menos três semanas. E esperamos pacientemente. Não fazemos nada, apenas rezamos para os deuses certos. Depois de algum tempo olhamos no microscópio e, de repente, vemos que as células cutâneas, que normalmente são alongadas, começam a mudar sua morfologia, tornando-se parecidas comk células tronco, muito menores e arredondadas, e começam a se proliferar, formando o que chamamos de colônias. Quando vemos isso no microscópio, pensamos !ah, parece que elas foram reprogramadas”. Então pegamos mecanicamente as células, as isolamos e tentamos fazer com que continuem a se propagar. Quando isso ocorre, sabemos que estamos no caminho certo e que começando a formar uma linhagem celular. Em seguida, fazemos todas as demais caracterizações, temos que buscar outros genes e ver o que podem fazer. Podem se tornar nervos? Podem se tornar músculo? Podem se tornar isso ou aquilo? E então decidimos, sim, são células tronco. Mas o procedimento todo leva um tempo. E os resultados mais eficientes ainda estão por volta dos 4%. Portanto, ainda temos muitos desafios pela frente. Mas o fato de que é possível é o que nos deixa animados.

SHANE HUNTINGTON
Sou Shane Huntington e minhas convidadas de hoje são a Dra. Mirella Dottori e a Dra. Alice Pébay. Estamos falando de células tronco aqui no Up Close, transmitido pela Universidade de Melbourne. Alice, uma das áreas de interesse em que você vem trabalhando é uma condição chamada ataxia de Friedreich. Você pode nos dar um ideia do que seja e do que significa ataxia?

ALICE PEBAY
A ataxia de Friedreich é uma doença genética autossômica recessiva que afeta um gene chamado frataxina. Basicamente, ocorre uma expansão de uma tríade de nucleotídeos no DNA. Essa expansão é grande demais e isso implica que a expressão do gene frataxina não vai ocorrer como nos indivíduos não afetados pela ataxia de Friedreich. O que acontece é que o gene não é adequadamente expressado, fazendo com que a proteína frataxina não seja encontrada em número suficiente na célula. A proteína frataxina, embora seja incuída por um gene nuclear, migra para a mitocôndria, onde está envolvida no transporte do ferro. Ocorre uma troca de ferro entre a mitocôndria e o citoplasma. No nível fisiológico, essa modificação cria grandes problemas para os individuos afetados, como ataxia, perda de movimentos, tremores, perda de nervos sensoriais, perda de nervos no cerebelo. Enfim, perda de muitos tipos celulares. Esse são os principais problemas, mas há outros problemas associados a essa doença, como o diabetes e problemas cardíacos. Há muitos problemas cardíacos, de diversos tipos, que costumam ser responsáveis pelas fatalidades na ataxia de Friedreich.

SHANE HUNTINGTON
Mirella, quem são os indivíduos afetados e com que idade a doença se manifesta?

MIRELLA DOTTORI
Normalmente, a doença começa na infância, talvez no final da infância, embora a manifestação tardia seja possível. Basicamente, existe uma correlação direta e, como a Alice disse, a doença se deve a uma expansão de trinucleotídeos GAA no gene frataxina.

SHANE HUNTINGTON
Você pode explicar o que significa essa expansão GAA?

MIRELLA DOTTORI
O DNA é composto por quatro tipos diferentes de nucleotídeos, G, A, T e C. No genoma, às vezes ocorre o que chamamos de repetições de dois ou três nucleotídeos, que são semelhantes e repetidos em número. Às vezes, quando há um número exagerado dessas repetições, podemos ter doenças como a Doença de Huntington, por exemplo, devido a uma repetição específica dessas expansões de nucleotídeos. Na ataxia de Friedreci ocorre algo semelhante, envolvendo especificamente os GAA, dois desse nucleotídeos, mas em agrupamentos trinucleotídicos chamados GAA, que se encontram expandidos em número. Indivíduos normais podem ter até 20 GAA, GAA, GAA, enquanto os indivíduos afetados pela ataxia de Friedrech têm em torno de 500 GAAs, GAAs e assim por diante. Isso ocorre nas regiões intrônicas daquele, portanto não na região onde a proteína é produzida, mas nos espaços entre elas, por assim dizer. Devido a esta enorme expansão, o DNA é muito enrolado e as demais proteínas não conseguem acessá-lo. Ou seja, as proteínas não podem abrir o DNA para que a transcrição proteica normal ocorra. Isso gera níveis muito baixos de expressão da proteína. Os indivíduos afetados pela ataxia de Friedreich não têm 0% de expressão, mas apenas 9 ou 10%, o que desencadeia o aparecimento dos sintomas. Nos portadores, essa repetição GAA afeta somente um cromossomo e não há sintomas. Eles têm metade da quantidade de proteínas, 50%. Enquanto na ataxia de Friereich isso ocorre nos dois cromossomos, portanto o defeito foi herdado de ambos os pais portadores dessas expansões GAA, então em vez de 100% ou 50%, são somente 9 ou 10%. O que resulta em 9, 10% da proteína frataxina e no aparecimento de sinais clínicos e das características da doença. Já se sabe que quanto mais longa a expansão, mais cedo aparecem os sintomas da doença e mais rápida é a sua progressão. Portanto, uma vez que os sintomas de ataxia, perda de equilíbrio, etc. comecem a se manifestar, a progressão é bastante rápida e, em poucos anos, os indivíduos afetados ficam confinados a uma cadeira de rodas. Há perda da coordenação e os nervos afetados em geral são os envolvidos na sensação, na percepção do peso e no equilíbrio. Então, não é como na doença do neurônio motor inferior, onde o paciente não tem controle muscular; na ataxia os pacientes têm controle muscular, mas não são capazes de sentir o solo sob seus pés. Não conseguem sentir as coisas. E devido à falta de resposta do corpo, não consegue se levantar. Não podem se equilibrar.

SHANE HUNTINGTON
Quando falamos do uso de células tronco pluripotentes induzidas no tratamento desta doença em particular, como isto funciona exatamente?

MIRELLA DOTTORI
Existem diversos tipos de células afetadas e na ataxia de Friedreich os tipos predominantes são as células do sistema nervoso, que causam a ataxia e, principalmente, as células cardíacas, que acabam levando o paciente ao óbito. Porque estes pacientes costumam ter problemas cardíacos graves. Ainda não foram feitos ensaios clínicos usando a tecnologia de células IPS. Ainda estamos em um estágio muito inicial. Mesmo com o uso de células tronco pluripotentes humanas, como as células tronco embrionárias. Com relação ao seu uso para terapia de substituição celular, o que é possível e o que é muito, muito complicado? A reposição de células cardíacas talvez venha a ser uma opção mais viável. Apesar de ser bastante complexa. Bastante complexa. A reposição de células do sistema nervoso é extremamente complexa e a maioria das pessoas acredita que não será possível. Mas quem sabe, nunca se sabe. É porque o sistema nervoso é como uma rede de fios, um circuito. Mas a possibilidade ainda existe. Então, uma possibilidade seria obter estas células IPS dos pacientes. Numa situação ideal, corrigir as mutações, remover as expansões GAA ou reintroduzir a frataxina nas células, o que pode ser feito em laboratório. E, em seguida, transformar estas células IPS nos tipos celulares que devem ser substituídos no organismo. Este é um dos potenciais de uso. O outro uso muito válido das células diz respeito à enorme falta de modelos celulares adequados desta doença. Pois diferentes tipos celulares são afetados e as únicas células que se tem para trabalhar são principalmente células sanguíneas e células cutâneas dos pacientes, que não são os tipos celulares afetados, mas mesmo assim podem ser isolados dos pacientes e usados para detecção de drogas ou para o estudo da patogênese da doença. Agora temos então uma fonte e, através do uso de células IPS destes pacientes, podemos produzir células IPS e transformá-las nos tipos celulares específicos que sofrem degeneração nesta doença. As células cardíacas e as células nervosas. Uma vez de posse das células nervosas e das células cardíacas da doença, podemos realizar ensaios de detecção de drogas para ver quais drogas têm a capacidade de aumentar os níveis de frataxina especificamente nestes tipos celulares. E isso é muito importante. Como você sabe, nem toda célula responde da mesma maneira a uma determinada droga. A resposta é específica daquele tipo celular. E embora existam alguns modelos animais de ataxia de Friedreich, eles são muito limitados. Portanto, um sistema celular seria muito útil.

SHANE HUNTINGTON
Alice, deixe-me perguntar. Com relação à produção desta células e o seu cultivo em laboratório, qual o fator que está restringindo o procedimento a esta baixa porcentagem de sucesso e o que vem sendo feito para contornar o problema?

ALICE PEBAY
Sim, a técnica de reprogramação de células IPS é nova, foi descrita há apenas três, quatro anos, então muitas pessoas, no mundo todo, incluindo nosso grupo, estão trabalhando na descoberta de novas técnicas. Uma molécula pequena, não-viral. Toda uma gama de novas técnicas para melhorar a eficiência da reprogramação. Mas acho que esta é apenas uma parte da pesquisa. Uma outra parte, também importante, é, quando tivermos as células IPS, mesmo com baixa reprogramação, o aumento do número das células de interesse e esta é uma outra parte extremamente importante da pesquisa. Como chegar de uma quantidade pequena de células a uma quantidade muito maior de, no nosso caso, cardiomócitos e neurônios. Eu acho que esta é uma questão fundamental. E acho também que a complexidade desta pesquisa advém do fato de, como já foi dito, as células IPS serem semelhantes às células tronco embrionárias humanas. Hoje, não sabemos o quão semelhantes ou diferentes elas são na verdade. Então, além do estudo da doença através de células IPS, ainda estamos estudando se as células IPS constituem um bom modelo de desenvolvimento, por exemplo. Como é o caso das células embrionárias. Ou se elas apresentam características associadas à reprogramação. Portanto, o trabalho é muito complexo no momento, pois é necessário estudar a doença, trabalhar na detecção de drogas, tentar obter um número maior de células e também tentar se certificar de que as células que geramos são de fato um espelho das células tronco embrionárias humanas ou não. Tudo isso torna o trabalho muito complexo.

SHANE HUNTINGTON

Dra. Mirella Dottori, chefe do Laboratório de Células Tronco do Centro de Neurociências da Universidade de Melbourne e Dra, Alice Pébay, cientista Sênior e chefe do Programa de Diferenciação Cardíaca do Grupo de Medicina de Células Tronco do Instituto O’Brien, obrigada por estarem conosco hoje aqui no Up Close e por nos darem uma visão dessa nova e instigante área de pesquisa.

MIRELLA DOTTORI
Muito obrigada.

ALICE PEBAY
Obrigada.

SHANE HUNTINGTON
Links relevantes, a transcrição completa e mais informações sobre este episódio podem ser encontrados em nosso site Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Up Close é uma produção da Universidade de Melbourne, Austrália. Este episódio foi gravado na quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011. Este episódio foi produzido por Kelvin param e Eric van Bemmel. Engenharia de áudio por Gavin Nabauer. Pesquisa prévia por Dyani Lewis. Up Close é uma criação de Eric van Bemmel e Kelvin Param. Sou Shane Huntington. Até a próxima, até logo.

NARRADOR
Você acaba de ouvir Up Close. Para mais informações, visite Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Direitos autorais da Universidade de Melbourne, 2011.

Fonte  

 

 

O legado de Marie Schlau: literatura e solidaridade

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